A reabertura de determinados estabelecimentos e serviços em São Paulo tem seguido um roteiro de difícil compreensão. Tome-se o exemplo dos shopping centers. Eles reabriram com segurança há mais de um mês, sem registro de efeitos negativos para a evolução da pandemia. Bares e restaurantes também já podem funcionar, seguindo seus novos protocolos. Mas, e os equipamentos culturais? Por que todos os demais setores da economia podem voltar a operar enquanto a cultura segue interditada?

No momento atual, prefeitura e governo estadual assumiram o papel de decidir quais estabelecimentos ou serviços podem funcionar. Em última instância, o poder público passou a decidir quem pode ou não trabalhar. O problema é quando essa decisão adota critérios que não seguem a lógica. Aí, temos pessoas prejudicadas injustamente.

Não faz sentido considerar alguns lugares mais “perigosos” do que outros quando ambos seguem o mesmo padrão de edificação. Por que os equipamentos culturais não podem funcionar? Galerias, salas de exposição, teatros. O que os difere dos que já estão operando? Justo a cultura que tão bem sabe cuidar do público e sempre operou com protocolos definidos.

Vou além. Desde o início da pandemia, o transporte aéreo segue operando. Está correto. É possível realizar voos mediante o cumprimento de protocolos. Seguindo tais medidas preventivas, autoriza-se a acomodação de 150 pessoas espaçadas entre si por menos de 1 metro de distância. Esse cenário, considerado seguro em um avião (imaginemos inclusive os voos que levam horas), não é admitido em uma sala de cinema?

Fica claro que, mais uma vez, o setor cultural é colocado para escanteio. A cultura está, infelizmente, acostumada a ser colocada no fim da fila de prioridades, precisando sempre disputar bravamente orçamentos que garantam sua sobrevivência. Agora, nem isso ocorre. O setor foi deixado à míngua, com toque de descaramento.

Trabalhadores da área técnica de eventos, indignados com essa situação, organizaram um protesto em frente à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo recentemente. Eles exigem que haja alguma definição de protocolo para que possam voltar a trabalhar, assim como foi feito com os demais setores.

No Brasil, a cultura gera cerca de 1 milhão de empregos diretos. Só em São Paulo, são mais de 300 mil. Um número assombroso de gente impossibilitada de trabalhar há 5 meses. Essa economia representa mais de 2% do PIB brasileiro e calcula-se que cerca de 4 milhões de outros trabalhadores informais tenham renda a partir de atividades artísticas. Como explicar a essas pessoas –esforçadas, dedicadas, talentosas e que sustentam honestamente suas famílias– o fato de não terem permissão para trabalhar enquanto assistem à reabertura de várias atividades exercidas em espaços fechados?

A cultura deve ser lembrada como prioridade, assim como a feira livre, o bar, o shopping e o avião. Os trabalhadores da cultura não são apenas estatísticas na pandemia. São pessoas que precisam se alimentar, precisam de remédios, precisam pagar por suas moradias e todas suas contas. Como os trabalhadores de outras áreas, são também pessoas que sustentam famílias e precisam trabalhar. Eles merecem o nosso aplauso. Sem eles não há cultura e, sem cultura, não há nada de bom para nós.

Que reabram as cortinas imediatamente! Obviamente, garantindo todos os protocolos de segurança sanitária que o momento exige, primando sempre pela segurança dos profissionais e do público.

(Artigo publicado no site Poder360 em 14/08/2020)